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terça-feira, 15 de setembro de 2020

O brasileiro filho de padre e escrava que lutou pelo fim da escravidão

José Carlos do Patrocínio era filho de João Carlos Monteiro, vigário da paróquia de Campos dos Goytacazes (RJ) e orador sacro de reputação na Capela Imperial, com Justina do Espírito Santo, uma jovem escrava traficada de Elmina, cidade localizada em Gana. Justina tinha apenas quinze anos e tinha sido cedida ao serviço do cônego por D. Emerenciana Ribeiro do Espírito Santo, proprietária da região.
José do Patrocínio nasceu em Campos dos Goytacazes no dia 9 de outubro de 1853. Embora sem reconhecer a paternidade, o religioso encaminhou o menino para a sua fazenda na Lagoa de Cima, onde José do Patrocínio passou a infância como liberto, porém, convivendo com os escravos e com os rígidos castigos que lhes eram impostos.Aos catorze anos de idade, tendo completado a sua educação primária, pediu, e obteve ao pai, autorização para ir para o Rio de Janeiro. Encontrou trabalho como servente de pedreiro na Santa Casa de Misericórdia (1868), empregando-se posteriormente na casa de saúde do doutor Batista Santos. Patrocínio ingressou na Faculdade de Medicina como aluno de Farmácia, concluindo o curso em 1874.Logo em seguida, Patrocínio iniciou a carreira de jornalista em parceria com Dermeval da Fonseca, publicando o quinzenário satírico ‘Os Ferrões’, que circulou de 1 de junho a 15 de outubro de 1875, com um total de dez números. Os dois colaboradores assinavam com os pseudônimos Notus Ferrão (Patrocínio) e Eurus Ferrão (Fonseca).
Dois anos depois (1877), admitido na Gazeta de Notícias como redator, foi encarregado da coluna Semana Parlamentar, que assinava com o pseudônimo de Prudhome. Foi neste espaço que, em 1879, iniciou a campanha pela abolição da escravatura no Brasil. Em torno de si formou-se um grupo de jornalistas e de oradores, entre os quais Ferreira de Meneses (proprietário da Gazeta da Tarde), Joaquim Nabuco, João Clapp, Lopes Trovão, Paula Nei, Teodoro Fernandes Sampaio e Ubaldino do Amaral, todos da Associação Central Emancipadora.

Fundou, em 1880, juntamente com Joaquim Nabuco, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Com o falecimento de Ferreira de Meneses (1881), com recursos obtidos junto ao sogro, adquiriu a Gazeta da Tarde, assumindo-lhe a direção. Em Maio de 1883, articulou a Confederação Abolicionista, congregando todos os clubes abolicionistas do país, cujo manifesto redigiu e assinou, juntamente com João Clapp, André Rebouças e Aristides Lobo. Nesta fase, Patrocínio não se limitou a escrever: também preparou e auxiliou a fuga de escravos e coordenou campanhas de angariação de fundos para adquirir alforrias, com a promoção de espetáculos ao vivo, comícios em teatros e manifestações em praça pública.
Em 1882, a convite de Paula Nei, Patrocínio visitou a província do Ceará, onde foi recebido em triunfo. Essa província seria pioneira no Brasil ao decretar a abolição já em 1884.

Em 1885 visitou sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, sendo também recebido em triunfo. De volta ao Rio de Janeiro, trouxe a mãe, idosa e doente, que viria a falecer no final desse mesmo ano. O sepultamento transformou-se em um ato político em favor da abolição, tendo comparecido personalidades como as do ministro Rodolfo Dantas, o jurista Rui Barbosa e os futuros presidentes Campos Sales e Prudente de Morais. No ano seguinte (1886), iniciou-se na política, sendo eleito vereador da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, com votação maciça. Obtida a vitória na campanha abolicionista, as atenções da opinião pública se voltaram para a campanha republicana.

Após a proclamação da República (1889), entrou em conflito em 1892 com o governo do marechal Floriano Peixoto, pelo que foi detido e deportado para Cucuí, no alto rio Negro, no estado do Amazonas.

Retornou discretamente ao Rio de Janeiro em 1893, mas, com o estado de sítio ainda em vigor, a publicação do ‘A Cidade do Rio’ continuou suspensa. Sem fonte de renda, Patrocínio foi residir no subúrbio de Inhaúma.

Patrocínio faleceu no Rio de Janeiro em 29 de janeiro de 1905, aos 51 anos de idade, e é considerado por seus biógrafos o maior de todos os jornalistas da abolição.

Matéria Original em Obs3setor.

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