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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Horst Brenke: o soldado brasileiro de Hitler

O jornalista mineiro Tarcísio Badaró (1986) conseguiu o diário de Horst, o traduziu e depois saiu em busca de mais informações sobre esse curioso caso. Era um garoto, e já começa com a narrativa de Horst em batalha. Os sofrimentos que passou até ser capturado pelos russos.
Horst Brenker e seus pais. | Reprodução
O curitibano Horst Brenke (nasceu pelas mãos da avó, na casa da família, em Curitiba) foi uma dessas pessoas sobre quem o azar exerce influência extraordinária. Filho de pais alemães (Richard e Margarete Brenke, que se conheceram em Düsseldorf, em 1920), Horst teve uma visita à família em Berlim completamente arruinada quando saiu para comprar pão e acabou sendo recrutado à força pelo exército nazista.

"Vou tentar comprar pão".
"Não, meu filho. É perigoso".
"Eu corro até o armazém perto da estação. Se também não tiver pão, volto na mesma hora".

Foram essas palavras que Horst Brenke disse para Margarete, sua mãe, antes de sair de casa. Era dia 6 de janeiro de 1945 e, enquanto estava na fila do pão, o brasileiro de 18 anos que vivia em Berlim, na Alemanha, foi levado pelo exército nazista de Adolf Hitler para combater na Segunda Guerra Mundial. Quando os militares o encontraram, não adiantou explicar que tinha nascido no Brasil. Como os pais eram alemães, foi obrigado a pegar em armas para guerrear pela ideologia de Adolf Hitler.
Era o fim da Segunda Guerra Mundial, e as forças de um Hitler já morto minguavam sob a força dos soviéticos, que marchavam para tomar a capital alemã. A tropa de Brenke rumava para o Oeste afim de encontrar o 12º Exército alemão e juntar uma força maior a fim de fazer frente aos homens de Stalin.

Encaminharam Horst para o campo de batalha quando a derrota alemã já se mostrava inevitável. Os russos se aproximavam rapidamente de Berlim e pouco tempo depois, no final de abril, Hitler estaria morto. Por fim, no dia 8 de maio, a rendição alemã seria assinada. No entanto, a essa altura o destino do jovem já não dependia de seus próprios esforços ou dos caprichos dos conterrâneos de seus pais.

No dia 28 de abril, o grupo em que Horst estava foi cercado no vilarejo de Halbe, ao sul de Berlim. Após dois dias de batalha que, estimam, deixou mais de 40 mil mortos, os sobreviventes que lutavam pelo nazismo foram cercados e capturados pelo exército russo. Assim, o jovem brasileiro se tornava um prisioneiro de guerra.
O campo Vladimir | Reprodução
HISTÓRIA QUE DEU UM LIVRO
A história de Horst está no livro "Era um Garoto – O Soldado Brasileiro de Hitler", do jornalista Tarcísio Badaró, recém-lançado pela Vestígio. Para reconstruir a trajetória do jovem, o autor se baseou principalmente nos relatos que o protagonista deixou em diários escritos entre maio de 1945 e outubro de 1946, além de entrevistas e viagens para os lugares por onde o militar passou. "Os diálogos têm duas fontes: o diário e as lembranças de personagens secundários. Horst reproduzia diálogos constantemente em seu diário. Isso é revelador do tipo de relação que ele tinha com suas notas, e da expectativa para elas. Da mesma forma os detalhes de cena.

Horst era detalhista em seu diário. Mas a narrativa do livro precisa ir além. Consegui muitos detalhes na visita aos locais, nas entrevistas com ex-soldados e ex-prisioneiros, na leitura de outros diários e memórias e também da literatura sobre o tema", conta o autor, que, além da narrativa principal, também reconstitui na obra a vida da mãe e da irmã do garoto enquanto a Alemanha era devastada.

Horst nasceu em Curitiba e, depois de uma temporada em Belo Horizonte, seus pais decidiram voltar com a família para o país de origem em 1939.
Queriam aproveitar a aparente prosperidade que acreditavam que a Alemanha vivia. "A volta à Alemanha é uma passagem poco clara. Cravar o que entendiam ou pensavam sobre Hitler é difícil. A pesquisa me sugeriu que eles não eram bem informados, que não tinham conhecimento sobre o que ocorria por lá. Ouviam sobre o ressurgimento econômico do país, se interessavam por esse ressurgimento e, possivelmente, até o relacionavam a Hitler. Mas não entendiam o caminho que a Alemanha e a Europa tomavam. Muito menos as práticas usadas para isso. O fato é que, nem antes nem depois da volta, não encontrei qualquer indicio de nacionalismo, interesse politico, simpatia ou concordância com as ideias nazistas. Pelo contrário", diz Badaró.
Passaporte de Horst na volta ao Brasil | Reprodução
HORST, UM SOBREVIVENTE
Depois de capturado, primeiro Horst foi levado para o campo de Stalag VIIC, mas o lugar que se transformou sua "casa" por mais tempo foi a fábrica de tratores em Vladmir, cidade a cerca de 200km de Moscou. Para chegar lá, longas viagens de trem em vagões superlotados, onde não era raro que prisioneiros morressem no deslocamento. Para aplacar a constante fome, restava-lhe dormir - e dormir em pé, pois sequer havia espaço para sentar no chão das composições.

"O que trará o futuro?", Horst registrou certa vez em um dos diários. E o futuro trouxe campos para escavar e terra, pedras e tijolos para carregar. Trouxe ainda mais fome, desnutrição, desesperança e frio, muito frio, com temperaturas que batiam os 30 graus negativos. No entanto, às vezes alguma surpresa aplacava seu sofrimento, como o dia no qual os prisioneiros ganharam dois camarões junto com a refeição que normalmente se limitava a pão duro e sopa rala de batata. "O coração de um prisioneiro de guerra se alegra com pouco!", registrou o jovem depois daquele singelo banquete.

Após passar mais de um ano como prisoneiro de guerra, Horst foi libertado. 

Em nova viagem de trem, foi deixado em Udine, na Itália, em julho de 1946. Por lá, perambulou pelas rua e dormiu em sanatórios até que conseguisse arrumar a documentação para retornar ao Brasil. De lá que também retomou contato com sua família, que permanecia em Berlim, por meio de cartas e cartões-postais.

Horst voltou ao Brasil em outubro de 1946, dois anos antes do regresso de sua mãe, seu pai e sua irmã. O garoto que saiu para comprar pão, foi transformado em um militar do nazismo e passou mais de um ano nas mãos dos russos, conseguiu, como foi possível, reestruturar sua vida. Casou-se, teve 7 filhos e viveu em Belo Horizonte até maio de 1984, quando, aos 57 anos, foi vitimado por um câncer.
Uma das páginas do diário de Horst | Reprodução
Desenho que Horst fez em seu diário | Reprodução
Um dos postais que Horst enviou à família quando estava na Itália | Reprodução
Verso do postal | Reprodução

Fontes:
Livro "Era Um Garoto - O soldado brasileiro de Hitler
Autor: Tarcísio Badaró 

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