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sábado, 4 de agosto de 2018

Caldeirão de Santa Cruz do Deserto

O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto foi um dos movimentos messiânicos que surgiu nas terras no Crato, Ceará. A comunidade era liderada pelo paraibano de Pilões de Dentro, José Lourenço Gomes da Silva, mais conhecido por beato José Lourenço. No Caldeirão, os romeiros e imigrantes trabalhavam todos em favor da comunidade e recebiam uma quota da produção. A comunidade era pautada no trabalho, na igualdade e na Religião. Sítio Baixa Dantas - José Lourenço trabalhava com sua família em latifúndios no sertão da Paraíba. Decidiu migrar para Juazeiro do Norte, onde conheceu Padre Cícero e ganhou sua simpatia e confiança. Em Juazeiro conseguiu arrendar um lote de terra no sitio Baixa Dantas, no município do Crato.

Com bastante esforço de José Lourenço e os demais romeiros, em pouco tempo a terra prosperou, e eles produziram bastante cereais e frutas. Diferente das fazendas vizinhas, na comunidade toda a produção era dividida igualmente.
José Lourenço tornou-se líder daquele povoado, e se dedicou à religião, à caridade e a servir ao próximo. Mesmo analfabeto, era ele quem dividia as tarefas e ensinava agricultura e medicina popular. Para o sítio Baixa Dantas eram enviados, por Padre Cícero, assassinos, ladrões e miseráveis, enfim, pessoas que precisavam de ajuda para trabalhar e obter sua fé. Após o surgimento da Sedição de Juazeiro, da qual José Lourenço não participou, suas terras foram invadidas por jagunços. Com o fim da revolta, José Lourenço e seus seguidores reconstruíram o povoado.

Em 1921, Delmiro Gouveia presenteou Padre Cícero com um boi, chamado Mansinho, e o entregou aos cuidados de José Lourenço. Os inimigos de Padre Cícero, se aproveitaram disso espalhando boatos de que as pessoas estariam adorando o boi como a um Deus. Por conta disso, o boi foi morto e José Lourenço foi preso a mando de Floro Bartolomeu, tendo sido solto por influência de Padre Cícero alguns dias depois.
Caldeirão de Santa Cruz do Deserto

Em 1926, o sítio Baixa Dantas foi vendido e o novo proprietário exigiu que os membros da comunidade saíssem das terras. Com isso, Padre Cícero resolveu alojar o beato e os romeiros em uma grande fazenda denominada Caldeirão dos Jesuítas, situada no Crato, onde recomeçaram o trabalho comunitário, criando uma sociedade igualitária que tinha como base a religião. Toda a produção do Caldeirão era dividida igualmente, o excedente era vendido e, com o lucro, investia-se em remédios e querosene.

No Caldeirão cada família tinha sua casa e órfãos eram afilhados do beato. Na fazenda também havia um cemitério e uma igreja, construídos pelos próprios membros. A comunidade chegou a ter mais de mil habitantes. Com a grande seca de 1932, esse número aumentou, pois lá chegaram muitos flagelados. Após a morte de Padre Cícero, muitos nordestinos passaram a considerar o beato José Lourenço como seu sucessor.

Devido a muitos grupos de pessoas começarem a ir para o Caldeirão e deixarem seus trabalhos árduos, pois viam aquela sociedade como um paraíso, os poderosos, a classe dominante, começaram a temer aquilo que consideravam ser uma má influência.
Balas caindo do céu

Em 1937, sem a proteção de Padre Cícero, que falecera em 1934, a fazenda foi invadida, destruída, e os sertanejos divididos, ressurgindo novamente pela mata em uma nova comunidade, a qual em 11 de maio foi invadida novamente, mas dessa vez por terra e pelo ar, quando aconteceu um grande massacre, com o número oficial de 400 mortos. Foi a primeira ação de extermínio do Exército Brasileiro, e Polícia Militar do Estado do Ceará. Acontecera o primeiro ataque aéreo da história do Brasil. Os familiares e descendentes dos mortos nunca souberam onde encontra-se os corpos, pois o Exército Brasileiro e a Polícia Militar do Ceará nunca informaram o local da vala coletiva na qual os seguidores do Beato foram enterrados. Presumi-se que a vala coletiva encontram-se no Caldeirão ou na Mata dos Cavalos, na Serra do Cruzeiro (região do Cariri).


Não Houve Conflito


Caldeirão hoje

Da época da Irmandade do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, exitem ainda a capela branca, que tem como padroeiro Santo Inácio de Loyola, ao lado da ermida, duas casas, um muro de laje de um velho cemitério, um cruzeiro e no alto as ruínas da residência do beato José Lourenço.

Atualmente, 47 famílias revivem o sonho coletivo de produção idealizado por José Lourenço, num sítio denominado Assentamento 10 de Abril, a 37 km do centro do Crato. No local encontram-se 47 casas, sendo que 44 de alvenaria e uma escola, porém sem ostentar a grandeza atingida pelo então Caldeirão do beato José Lourenço .

As famílias residentes mantém uma horticultura orgânica (couve, coentro, cenoura, macaxeira, alface, pimentão e espinafre estão entre as hortaliças cultivadas) e uma lavoura para auto-abastecimento. Parte dos homens também mantém um produtivo apiário, que contribui para os rendimentos do grupo.

A ONG SOS Direitos Humanos entrou com uma Ação Civil Pública no ano de 2008 na Justiça Federal do Ceará, contra o Governo Federal do Brasil e Governo do Estado do Ceará, requerendo que o Exército Brasileiro

a) torne público o local da vala coletiva, 
b) realize a exumação dos corpos, 
c) identifique as vítimas via exames de DNA, 
d) enterre os restos mortais de forma digna, 
e) idenize no valor de R$ 500 mil, todos os familiares das vítimas e os remanescentes, 
f) inclua na história oficial, à título pedagógico, a história do massacre / chacina / genocídio do Sítio da Santa Cruz do Deserto, ou Sítio Caldeirão. A pedido do Ministério Público Federal da cidade de Juazeiro do Norte/Ceará, a ação foi extinta sem julgamento de mérito pelo juiz da 16ª Vara Federal de Juazeiro do Norte/Ceará.

A ONG SOS DIREITOS HUMANOS, inconformada com a decisão, recorreu ao egrégio Tribunal Regional Federal da 5ª Região em Recife, Pernambuco, requerendo que a ação seja julgada o mérito porque a) o crime cometido contra a comunidade do Sítio Caldeirão é de lesa humanidade, e portanto, imprescritível. A ONG "SOS DIREITOS HUMANOS" no ano de 2009, denunciou o Brasil à OEA - Organização dos Estados Americanos, por crime de desaparecimento forçado de pessoas e para que seja obrigada a informar a localização da COVA COLETIVA com as 1000 vítimas do Sítio Caldeirão. A ONG "SOS DIREITOS HUMANOS" considera o SÍTIO CALDEIRÃO como o Araguaia do Ceará, uma vez que os militares mataram 1000 pessoas e após, enterraram em COVA COLETIVA em lugar desconhecido da MATA CAVALOS, em cima da Chapada do Araripe. A ONG "SOS DIREITOS HUMANOS" está pedindo auxílio à entidades internacionais para que a COVA COLETIVA seja encontrada, bem como, de geólogos, geofísicos e arqueólogos para identificar a localização da cova coletiva.


Em 1986 o cineasta Rosemberg Cariry, realizou um documentário rico em depoimentos de sobrevintes do massacre. Caldeirão é um movimento considerado como uma outra Canudos


O Caldeirão da Santa Cruz do Esquecimento


Um pequeno sítio numa propriedade abandonada num pé de serra, nos confins do mundo, oficialmente denominada Santa Cruz, distrito de Crato, Ceará. Como se confirmaria depois, e por um outro itinerário, aparentemente sem nenhum motivo para ser lembrado. Afinal, muitos são os pequenos sítios e também muitas são as propriedades que de tão abandonadas não se destacam em seus relentos no abandono geral daquelas terras sem dono do Sertão do Cariri.

Outro, não menos esquecido, de nome José Lourenço Gomes da Silva, cruzou com o caminho do sítio em meados da década de 20 do século passado, ao receber a posse das terras de um ilustre donatário. Após vê-lo preso por, simplesmente, pregar a palavra de Deus em praça pública, o Padre Cícero de Juazeiro do Norte destinou o sítio para que o Beato José Lourenço pudesse viver em paz a sua fé. Apartado do mundo, longe de tudo. Sem nenhum motivo para ser lembrado.

Assim foi feito. Palavra de Santo não é muito dada a desobediências. Mas em um ponto a ordem de Padim Ciço não pode ser cumprida por inteiro. Sem explicação aparente, ou pelo vigor que aquele povo tem em construir sua própria história, o sítio começou a atrair a atenção dos sertanejos que, em grandes grupos, se mudavam para o local, agora batizado de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.

Com a fama espalhada pelo Nordeste, sertanejos de outros estados, principalmente do Rio Grande do Norte, procuraram a comunidade para fixar moradia. Com o tempo mais de duas mil pessoas habitavam o Caldeirão. Em sua maioria, gente pobre querendo sobreviver. Expiando com muita reza e trabalho os pecados de sua vida seca, do solo seco, do futuro rachado pelo não menos seco silêncio indiferente das autoridades.

No Caldeirão, nada tinha dono, não havia posse. A vida era comunitária, o sistema cooperativo. Era dar para receber. E todos recebiam. Com o plantio de cana, arroz, feijão e a criação de animais, como bois e cabras, José Lourenço e seus companheiros resolveram o problema da fome numa região marcada pela estiagem e, consequentemente, pela falta de comida. A população do Caldeirão crescia e, com isso, vieram carpinteiros, ferreiros e artesãos que passaram a produzir cintos, roupas, ferramentas, sapatos. Tudo fomentado com matéria prima local. O algodão, por exemplo, era plantado na própria comunidade. O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto caminhava para ser auto-suficiente.

Até aqui o sítio doado pelo Padre Cícero cumpria sua sina. Exatamente onde o vento faz a curva, uma terra pobre habitada por gente de olhos fundos, com pouca carne entre ossos e pele, marcada pela privação. De proprietário, apenas a Vida. De capataz, apenas o Tempo. Conseguir se sustentar pelo próprio trabalho parecia o coroamento da palavra do patriarca de Juazeiro do Norte. O Caldeirão não praticava o comércio, seus integrantes não conviviam com a Sociedade, numa existência praticamente apartada do Mundo. Era somente trabalhar e rezar, segundo os desígnios do Beato José Lourenço. Mais do que nunca parecia, para o Beato, que aquela sociedade que tão injustamente o havia encarcerado estava ficando para trás. Seu Caldeirão não precisava do mundo. O mundo não valia a pena. Melhor era esquecer dos que o esqueceram, viver afastado, sem nenhum motivo para ser lembrado.

Mas não tão fácil, meu caro. No mundo do cão nada sai de graça e até mesmo a morte, seja ela física ou simbólica, tem um preço. De repente os esquecidos passaram a ser lembrados. Acontece que o Padre Cícero, cuja imagem emprestava bons ares ao ajuntamento de José Lourenço, resolvera curtir sua santidade ao lado de Deus desde 1934. Com o perdão do trocadilho, foi caixão. Os padres salesianos, junto ao bispado e ao governo do Ceará, começaram a delirar. Mas nada de onírico havia no devaneio dos donos do Estado. Parecia mais com um pesadelo.

O antes inofensivo Caldeirão da Santa Cruz do Deserto virou uma célula do “comunismo primitivo”. Seus moradores praticantes do fanatismo e adoradores de ídolos pagãos, no caso um boi chamado mansinho, porém, de fato, uma versão matuta do bezerro de ouro relatado na Bíblia. Alguns historiadores acreditam que, na real, estava faltando a tradicional mão-de-obra barata, quase escrava, para as fazendas dos latifundiários, algo parecido com Canudos. Paralelos à parte, o Caldeirão incomodava, metia medo. E, por isso, seria implacavelmente cassado.

Só para contextualizar, eram tempos de ditadura getulista. Era o ano do Departamento de Impresa e Propaganda, de Vinícius de Moraes, futuro poetinha do Brasil, ainda censor de audiovisual. O pecado de conseguir sobreviver na seca e fazer do semi-árido um oásis não iria ser perdoado facilmente. Em 1936, a Polícia Militar do Ceará invadiu o Caldeirão e tomou todos os bens da comunidade, expulsou seus membros e só não prendeu o Beato José Lourenço porque este fugiu para a Chapada do Araripe. Apesar de tudo, ainda não era o desterro do Caldeirão. Seus membros continuaram nos arredores prontos para reerguer a obra.

Aqui tem lugar o episódio mais trágico desta história. Algo que poucos conhecem e que, sem dúvida, merece relevo. O Governo de Getúlio Vargas mandou Caças, da Força Aérea Brasileira, para bombardear o território do Caldeirão. Morreram 700 pessoas. Estamos falando de aviões e bombas contra o povo que, ao contrário do de Canudos, não ofereceu resistência violenta e nem mesmo tinha armas, a não ser que consideremos como tais foices e enxadas.

Neste momento, o autor gostaria de perguntar: quantos de vocês, leitores, sabiam disso? Poucos, eu imagino. A endemonização do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto atendeu, por vias tortuosas, aos desígnios de seus criadores. Nada do que foi escrito aqui foi publicado nos jornais da época, até porque isso não interessava aos poderosos. Por muito tempo o Caldeirão continuou do jeito que nasceu: apartado do mundo. Só a partir da década de 70, esta história foi sendo desvendada pouco a pouco por alguns corajosos da cultura caririense, com participação da Universidade Regional do Cariri.

No entanto, muitos dos interessados no assunto continuam a acreditar e divulgar que o Caldeirão foi mesmo uma experiência socialista-comunista, sendo inclusive veiculado em dissertação de mestrado e documentário. Ou seja: a mesma balela divulgada por aqueles que o destruíram. A memória coletiva sofre. O verdadeiro Caldeirão dorme. Tão profundamente quanto o sono eterno de José Lourenço e do Padre Cícero, os únicos a terem êxito em seu intento. O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto dorme, sim, sem sonhos, nem pesadelos, sem nenhum motivo para ser lembrado.


Sítio do Caldeirão – O Araguaia do Ceará

Agradecimento sincero ao Dr.Otoniel Ajala, da ONG- SOS Direitos Humanos por revelar ao povo mais um capítulo negro de nossa história que nos foi ocultado.A chacina que ninguém conhece porque nunca foi contada pelos livros de história…Ação Civil Pública requer que a União e o Estado do Ceará informem o local da COVA COLETIVA onde o Exército e a Polícia Militar do Ceará enterraram as 1000 vítimas do massacre do Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.

Foi o único ataque militar à civis usando aviões de guerra no Brasil!

No dia 10/11 de maio de 1937 a comunidade de camponeses católicos do sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, ou Sítio Caldeirão, localizado no município do Crato, Estado do Ceará, Brasil, foi invadido por forças do Exército brasileiro e da Polícia Militar do Estado do Ceará. Na Chapada do Araripe, enquanto a comunidade corria os militares subiam matando… Foi um crime de lesa humanidade, um genocídio, um crime de desaparecimento forçado de pessoas, já que após o massacre / chacina, os militares enterraram as 1000 vítimas em uma COVA COLETIVA e não dizem a localização da mesma para que as vítimas sejam enterradas com dignidade. Em 2008, a SOS DIREITOS HUMANOS , em defesa das vítimas do Caldeirão e do direito à Memória Histórica, ajuizou uma Ação Civil Pública contra a União Federal e o Estado do Ceará requerendo entre outros pedidos, que o Exército e a Polícia Militar cearense informem o local da vala coletiva, para que, os camponeses católicos massacrados sejam finalmente sepultados com dignidade. A ação foi extinta a pedido do MPF de Juazeiro do Norte, Ceará, mas a ONG SOS DIREITOS HUMANOS recorreu ao TRF5ª Região em Recife/Pernambuco, bem como, DENUNCIOU o Brasil à OEA – Organização dos Estados Americanos, para que informe a localização da cova coletiva.

AVISO: As vítimas ou familiares das vítimas falecidas durante a ação do Exército Brasileiro e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937 no Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e arredores, no município do Crato, Ceará, ou familiares das vítimas que faleceram depois da ação Genocida, devem entrar em contato com a sosdireitoshumanos
MEMORIAL “SÍTIO CALDEIRÃO”

Se você desejar colaborar com este memorial, nos envie o material para o email: sosdireitoshumanos

O ex-prefeito da cidade de Juazeiro do Norte, o farmacêutico JOSÉ GERALDO DA CRUZ que após o massacre do Sítio Caldeirão, encontrou em um único lugar na Chapada do Araripe, 16 (dezesseis) crânios de crianças.

O deputado FLORO BARTOLOMEU, que mandou prender o beato José Lourenço e depois mandou matar o boi Mansinho na frente da delegacia onde estava o beato.

Foto do túmulo da beata MARIA DE ARAÚJO que quando recebia a hóstia das mãos do padre CÍCERO, transformava-se em sangue em sua boca. Após a morde do “Padim”, o túmulo foi destruído e seus restos mortais escondidos por um sacerdote da igreja católica.

Foto de avião usado pela Aviação Naval brasileira do ano de 1916, comprovando que no ano de 1937, quando o Exército brasileiro atacou a comunidade do Sítio Caldeirão usando dois aviões, já há muito o governo brasileiro dispunha deste tipo de arma de guerra, uma vez que a Escola de Aviação Naval foi fundada pelo Decreto nº 12.167, de 23 de agosto de 1916, assinado pelo Presidente Wenceslau Braz, avô da aviação naval brasileira.

Foto de avião utilizado pelas forças armadas brasileiras na década de 30, ou seja, quando ocorreu o massacre via aéreo e terrestre contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto, ou, Sítio Caldeirão.

Dr. Otoniel Ajala Dourado
OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197

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