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terça-feira, 24 de julho de 2018

O dia que o Cangaço chorou: 80 anos da morte de Lampião

28 de julho de 1938. Madrugada fria de uma quinta-feira do inverno nordestino que entraria para a história. Há exatamente 78 anos, os cangaceiros Colchete, Marcela, Quinta-Feira, Luiz Pedro, Mergulhão, Elétrico, Alecrim, Moeda, Enedina, Maria Bonita, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tombam ao barulho ensurdecedor das espingardas escopetas no solo árido da Grota de Angicos, no município de Poço Redondo (SE).
Lampião, Maria Bonita, o fotógrafo Benjamin Abrahão e outros cangaceiros, 1936. Sertão nordestino, nas proximidades do rio São Francisco | Acervo IMS
A morte de Lampião e seu bando, embora tenha ocorrido no Estado sergipano, fora planejada e articulada em Alagoas, no governo de Osman Loureiro, que não dava trégua aos cangaceiros. O governador alagoano colocou como ponto de honra a captura desses homens que procuravam fazer justiça com as próprias mãos e aterrorizavam a população do Sertão.
O tenente João Bezerra
Depois de anos de perseguição, o cerco a Lampião aumentava até que as volantes sob o comando do tenente João Bezerra, aspirante Francisco Ferreira e sargento Aniceto Rodrigues conseguiram o êxito de descobrir o coito (local), onde os cangaceiros se refugiavam para descanso. Quem deu a dica do lugar que ficava às margens do Rio São Francisco, em território sergipano, fora os coiteiros, irmãos Pedro e Durval de Cândido, que residiam em Piranhas, na vila Entremontes. Fizeram isso sob a pressão dos policiais.
O planejamento de chegar até à Grota de Angicos e surpreender os cangaceiros ocorrera na noite anterior ainda em Alagoas. Detalhado o plano, o passo seguinte fora atravessar o São Francisco de canoa no embalo da correnteza e embrenhar-se na Caatinga. Maria Bonita, ao levantar, fora uma das primeiras a ser atingida pelos tiros. Ela, Lampião e mais nove morreram no local, do total de 36. Os demais se evadiram. Do lado das volantes, morreu o soldado Adrião.

Cessado o fogo, os soldados cometeram a atrocidade de cortar as cabeças dos cangaceiros e levá-las a Piranhas. O município serviu de palco para a exposição das cabeças dos cangaceiros que ainda percorreu algumas cidades sertanejas até serem levadas para o Instituto de Medicina Legal Nina Rodrigues, em Salvador.
Cabeças cortadas de membros do bando de Lampião, incluindo o próprio e sua parceira, Maria Bonita.
A morte do cangaceiro Corisco, que pertencia ao bando de Lampião e liderava um grupo, em Miguel Calmom, na Bahia, em 25 de maio de 1940, em combate com a volante do tenente Zé Rufino marca o fim do cangaço no Nordeste, mas o cangaço entra para a história do Brasil, com Lampião, o mais famoso cangaceiro, que era oriundo de Vila Bela, hoje cidade de Serra Talhada (PE).
Cristino Gomes da Silva Cleto , o Corisco.  Foto de Benjamim Abrahão, 1936.
E O QUE MUDOU?

O cangaço foi um fenômeno social bastante importante para a história das populações exploradas dos sertões brasileiros. Existem registros que datam do século XIX e que nos mostram a existência deste fenômeno por mais ou menos dois séculos. O cangaço só se tornou possível graças ao desinteresse do poder público e os desmandos cometidos pelos coronéis e pela polícia com a subserviência do Estado.

O sertão nordestino sempre foi tratado de forma desigual em relação à região litorânea, e o fenômeno da seca sempre foi utilizado para manutenção dos privilégios da elite regional. O fenômeno social do cangaço não deixa de ser uma reação a este modelo desumano de ocupação do território brasileiro, e à altíssima concentração de renda e de influência política.

O governo brasileiro nunca ofereceu os direitos básicos, fundamentais aos sertanejos; o Estado jamais ofereceu educação, saúde, moradia, emprego o que tornou a sobrevivência no sertão complicada; o único braço estatal conhecido na região é a polícia, que, como sabemos, age na defesa do “status-quo”, é prepotente e intimida.

O poder dos coronéis do sertão era o que prevalecia em detrimento dos direitos fundamentais da população. A economia sertaneja era basicamente a criação de gado para o suprimento do país, a carne do sertão abastecia os engenhos de açúcar e as cidades do Brasil. O sertão historicamente foi ocupado com a pecuária.

Passado 80 anos a realidade do sertão nordestino não mudou muito; o cangaço se foi e no lugar surgiram pistoleiros de aluguéis que moram no asfalto; e os coronéis de antigamente hoje estão espalhados e infiltrados nos três poderes, gozando de foro privilegiado. A seca ainda vitima milhões de sertanejos, que continua sendo tratada da mesma forma assistencialista do passado. Finalmente, a corrupção continua a mesma; mudaram os personagens e a moeda.

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