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quarta-feira, 21 de março de 2018

SELMA - 54 Anos Depois da Marcha Histórica





Moradores se emocionam ao lembrar de protesto pelos direitos civis nos EUA

Selma - Os golpes de cassetetes, a desorientação e a falta de ar provocada pelo gás lacrimogêneo aconteceram há 50 anos, mas lágrimas ainda correm pelo rosto de Charles Mauldin quando narra a primeira tentativa de ativistas de marchar de Selma a Montgomery para exigir o reconhecimento do direito de voto dos negros do sul dos Estados Unidos.
A violência com que os cerca de 600 manifestantes pacíficos foram reprimidos naquele 7 de março de 1965 moveu o pêndulo da opinião pública americana em favor do movimento, que tentava transformar em realidade um direito que a Constituição americana havia consagrado em 1870.

Henry Allen, aluno da R. B. Hudson
Força estudantil. Allen foi um dos alunos da escola R. B. Hudson que se organizaram para os protestos
Foto: Claudia Trevisan
Quase um século mais tarde, a maioria dos negros continuava impedida de votar no Alabama e nos Estados vizinhos, onde a segregação racial era institucionalizada. E a ação dos “homens da lei” no que ficou conhecido como “Domingo Sangrento” mostrava que os brancos não estavam dispostos a aceitar mudanças sem reagir.

Em 1965, os negros representavam metade da população de 28 mil habitantes de Selma, mas apenas 2% dos que tinham idade para votar eram registrados como eleitores, cenário que se repetia em diferentes graus por todo o sul dos EUA.

O caminho que levou à Marcha de Selma a Montgomery começou a ser trilhado em 1963, quando o ativista de direitos civis Bernard Lafayette decidiu ir à cidade para organizar estudantes da escola secundária R. B. Hudson, frequentada apenas por negros. “Lafayette começou a se reunir com os jovens e fazer perguntas como ‘por que seus pais não podem votar?’ ou ‘por que vocês têm de tomar água no bebedouro para os negros, se a água é a mesma?’”, disse Mauldin.

Henry Allen era um entre as centenas de alunos da R. B. Hudson que se organizaram em torno de Lafayette. “Ele nos mostrou que nós não tínhamos liberdade e direitos plenos”, recordou. O mentor dos alunos de Selma também ensinou os princípios da não violência, que era a base do movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King Jr. “A não violência estava no cerne da nossa atuação. Quem não aderisse à filosofia, não podia participar. Nós não podíamos reagir. Nunca.”

Os estudantes começaram a realizar marchas em Selma, muitas das quais terminavam em violência policial, prisão ou ambas. A repressão aos ativistas era comandada pelo xerife Jim Clark, opositor explícito do fim da segregação racial. Com a intensificação do movimento, ele recrutou jovens brancos para ajudar na dispersão dos protestos. Muitos integravam a Ku Klux Klan e, montados em cavalos, perseguiam os ativistas.

A agitação de Selma entrou no mapa nacional em 2 de janeiro de 1965, quando King foi à cidade e falou sobre o direito de voto a um grupo reunido na Capela Brown, que, mais tarde, se tornaria o quartel-general da marcha a Montgomery.

Naquele mês, um ativista visitou o Colégio Luterano da cidade e convidou seus estudantes a participar das manifestações. Entre os que aceitaram, estavam Dianne Harris e seu irmão, Isaac Howard III. Eles tinham 15 e 13 anos, respectivamente. “A História estava sendo feita em Selma e queríamos ser parte dela”, disse Harris durante entrevista em sua casa.

Ambos participaram de quatro marchas nas semanas seguintes e foram presos duas vezes. Em uma delas, passaram a noite detidos em um quartel de Selma. “Levei choque no braço direito com um instrumento usado para controlar gado e vi meninos serem espancados com cassetetes.”

A participação no movimento pelos direitos civis era um exercício de alto risco. A Ku Klux Klan era notória pela violência e pelo terror, praticados com impunidade. Em 1963, o grupo realizou um atentado a bomba na Igreja Batista de Birmingham, também no Alabama, que deixou quatro adolescentes negras mortas.

King voltou a Selma no dia seguinte ao “Domingo Sangrento”, após conclamar os americanos a se unir aos manifestantes. Centenas de pessoas de diferentes raças e religiões responderam ao chamado. Branca e judia, Claire Wahrhaftig voou de San Francisco ao Alabama. “Para usar uma linguagem de hoje, a notícia da repressão se tornou viral”, lembrou Claire, que participou do primeiro e do último trechos da marcha a Montgomery, entre os dias 21 e 25 de março.

Antes disso, o reverendo liderou uma segunda travessia da Ponte Edmund Pettus, no dia 9. Quando tropas estaduais abriram caminho para o grupo passar, ele determinou que todos dessem meia-volta. Temendo uma emboscada, preferiu aguardar autorização judicial para realizar a marcha sob proteção federal.

Mauldin, que estava na linha de frente do “Domingo Sangrento”, foi um dos 300 ativistas que percorreram de maneira integral os 82 km que separam Selma de Montgomery. Por razões de segurança, o número de participantes era reduzido em alguns trechos, onde a estrada era estreita ou os defensores da supremacia branca eram mais violentos.

Quando a marcha se dirigiu à Assembleia Legislativa do Alabama, os organizadores deram ao grupo o privilégio de estar à frente dos manifestantes.
“Quando olhei para trás, vi 20 mil, 30 mil pessoas, de todas as religiões, de todos os lugares, que estavam lá para nos apoiar”, contou Mauldin.
“Aquele foi um dos grandes momentos da minha vida. Não estávamos mais sozinhos. Tínhamos o apoio da população americana. Foi ali que percebemos que tínhamos vencido.”

Relato: Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

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